quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ce n'est pas...

Inominável. Não é tudo, mas parte. É como boa poesia: bem escrita, mas sem rima. Boa companhia para conversar - sobre futebol, carnaval, arte, livros, Big Brother; para passear - ainda que seja um passeio até o ponto do ônibus errado; para rir; para ouvir Céu e Hurtmold; para aprender coisas - como abrir arquivos em rar, enfim.... Mas (e sempre há um "mas), às vezes, é a abelha estranha que sai da rosa quando menos se espera, pronto para espetar seu ferrão na primeira vítima alérgica que encontra. Mesmo assim, é o veneno e o antídoto. Doce e azedo. Sol e tempestade. Luz e sombra. O corte e a cicatriz. Não é sim, nem não, é sempre talvez... A boboca e o moço, a enxerida paranoica e o rudeboy, a malemolenga e aquele que n'est pas..., talvez Vladimir e Estragon à espera de Godot. Talvez seja essa a história dessa amizade (que poderia ser temporária, mas parece estar se tornando permanente). Mas quem ou o que é o Godot que esperam? Não sei, mas permanecem sentados esperando. Em poucas palavras: foi aquele a quem eu concedi o status de "amigo". Facilmente.

(14/03/2010)



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Foram tempos de amizade e amor intensos.  No início, os dois completamente disponíveis - corações, braços, emoções, sempre abertos e prontos a dar e receber. Até que chega um dia (e a impressão que fica é de que o dia sempre chega), em que não se reconhecem. O amor e a amizade se transformam em indisposição. E o simples fato de haver amor na amizade transforma uma vida inteira que poderia ter sido em algo que nunca foi.

sábado, 20 de outubro de 2012

Sobre Carminha e outros demônios

A novela Avenida Brasil acaba hoje e só se fala nisso.

Boa ou má, todo mundo tem uma opinião sobre a novela. Se má, normalmente, a opinião gira em torno da alienação provocada pela Globo, do fato de que novela não mostra realidade, de que é melhor desligar a televisão e ler um livro, enfim...

Por que a novela gerou tanta comoção e, acima de tudo, identificação, eu não sei, mas, tirando o lado do entretenimento, essa novela mostrou uma coisa importante sim; mostrou como famílias desestruturadas geram crianças e, consequentemente, adultos desestruturados. Carminha e Max foram vilões mesmo? Ou seriam vítimas da situação?

Acho engraçado aceitarem rappers, funkeiros, filmes como Cidade de Deus, Ônibus 174, entre outros, como "obras-primas" que mostram a realidade do povo brasileiro ou veículos de denúncia da situação social, mas não aceitarem a novela (que é o que está mais próximo do povo) como tal. Não estou defendendo novela, muito menos a Globo; a gente tem controle remoto pra isso, pra selecionar o que vai assistir e, se for na Globo, se for na novela, tá valendo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Tim Knol

Eu não tenho ideia de quem seja Tim Knol. Só sei que ele é holandês e que é de uma música dele (When I am king) esse clipe maravilhoso.



Unindo o digital ao analógico, um cara fez uma animação com as pecinhas de madeira, que acho que foram ilustradas com pirógrafo. Ficou sensacional e a música é muito bonitinha também!!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Oh, Josué!!!


Médico, geógrafo, cientista e professor universitário, Josué de Castro nasceu no Recife em setembro de 1908.

Em 1932, três anos após se formar em Medicina no Rio de Janeiro, tornou-se livre-docente em Fisiologia na Faculdade de Medicina do Recife graças à tese intitulada “O problema fisiológico da alimentação”, que servirá de base para toda a sua obra.

Ao assumir a função de professor catedrático de Geografia Humana na Faculdade Nacional da Universidade do Brasil, em 1940, publica A alimentação brasileira à luz da geografia humana, em que já esboça as primeiras ideias relacionadas a políticas e órgãos do Estado com o objetivo de melhorar a condição de vida e saúde da população.

Embaixador do Brasil em Genebra, em decorrência do golpe militar, tem seus direitos políticos cassados. E, exilado na França, onde foi professor da Universidade de Paris e presidiu o conselho da Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), Castro falece aos 65 anos em 1973.

Além de ter recebido indicações para o Prêmio Nobel da Paz por duas vezes, o geógrafo publicou diversas obras, traduzidas para mais de 25 idiomas, entre elas Geografia da fome, Geopolítica da fome e o romance Homens e caranguejos.

Josué de Castro acreditava que a realidade em que vivia e sobre a qual debruçava seus estudos estava diretamente ligada a um conjunto de fatores étnicos, econômicos, históricos e naturais, que contribuíam de maneira definitiva para a análise dos problemas sociais e econômicos relacionados à questão da fome.

Ao estudar a fome, tomava-a como algo multidisciplinar, que envolvia a fisiologia, fatores físicos, morais, as condições do meio, entre outras abordagens, como se observa em trecho de sua obra A alimentação brasileira à luz da geografia humana:

(…) Para ser estabelecida uma alimentação racional fundada sobre os princípios rigorosamente científicos, alimentação que constitui a necessidade mais premente da vida e condição essencial para uma eficaz atividade produtiva de um povo, numa determinada região, são precisos, de um lado, estudos aprofundados da  fisiologia da nutrição, dos caracteres físicos e morais do povo dessa região, de sua  evolução demográfica, de sua capacidade e resistência orgânicas e de outro lado, estudo das condições físicas do meio, das suas condições econômicas, da organização social e dos gêneros da vida dos seus habitantes. Abarca, assim, o estudo da alimentação, capítulos de biologia, de antropologia, física e cultural, de etnogeografia, biologia, de patologia, de sociologia, de economia política e mesmo de história. (CASTRO, 1937: 22)

Na verdade, o que importa para Castro e perpassará toda sua obra é observar a fome como um fenômeno que envolve a ação do homem, do solo, do clima, da vegetação, do trabalho, não apenas um fenômeno geográfico, descritivo.

Único romance escrito por ele, Homens e caranguejos foi escrito em 1966 e publicado em 1967. Em tom aparentemente autobiográfico, a obra traz a história de João Paulo, um garoto pobre que começa a descobrir o mundo a partir da miséria e da lama do mangue. No decorrer da obra, o autor vai mostrando como as brincadeiras de infância são deixadas de lado dando lugar à dura vida do mangue, em que meninos se tornam caranguejos, enfiados na lama à procura do alimento.

É um retrato de como o fenômeno da fome se constrói e se desenvolve numa comunidade típica do Nordeste do Brasil, sem integração e que vegeta marginalizada.

Já no prefácio da obra, por meio do título “Prefácio um tanto gordo para um romance um tanto magro”, o autor anuncia que tratará, mais uma vez, da questão da fome, como se vê em trechos como:

Sentindo que a história que vou contar é uma história magra, seca, com pouca carne de romance, resolvi servi-la com uma introdução explicativa que engordasse um pouco o livro e pudesse, talvez, enganar a fome do leitor… (CASTRO, 2007: 9)
 (…) uma copiosa introdução a este romance que tem, como personagem central, ao drama da fome.” (CASTRO, 2007: 9)

É neste texto inicial que Castro estabelece o cenário em que se passará a história: “Nas terras pobres e famintas do Nordeste brasileiro, onde nasci…” (CASTRO, 2007: 9).

Ainda no prefácio, o autor relata que o livro traz uma história vivida por ele em seus anos de infância, a história da descoberta da fome, nos alagados da cidade do Recife, onde conviveu com a miséria, nos mangues do Capibaribe.

Estabelece também a relação homem/caranguejos, metáfora maior que é explorada ao longo do livro:

Esta é que foi a minha Sorbonne: a lama dos mangues do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejos. Seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo: este leite de lama. Seres humanos que se faziam assim irmãos de leite dos caranguejos. Que aprendiam a engatinhar e a andar com os caranguejos da lama e que depois de terem bebido na infância este leite de lama, de se terem enlambuzado com o caldo grosso da lama dos mangues, de se terem impregnado de seu cheiro de terra podre e de maresia, nunca mais podiam libertar desta crosta de lama que os tornava tão parecidos com os caranguejos, seus irmãos, com as suas duras carapaças também enlambuzadas de lama.
Cedo me dei conta deste estranho mimetismo: os homens se assemelhando em tudo aos caranguejos. Arrastando-se, acachapando-se como os caranguejos para poderem sobreviver. Parados como os caranguejos na beira da água ou caminhando para trás como caminham os caranguejos. (CASTRO, 2007: 10)

A grande questão da obra é a desse homem-caranguejo, que vive à margem dessa que é a quarta pior cidade do mundo, Recife, e de sua relação com a angústia da fome. O tema está presente em todos os capítulos da obra, nos assuntos abordados, na própria linguagem, na gíria, etc.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Minha infância no centro de São Paulo

Quando eu era pequena não havia tantos shoppings em São Paulo (não que eu seja um ser pré-histórico, mas havia poucos shoppings mesmo), a cidade era razoavelmente tranquila e comprávamos roupas, móveis, utensílios domésticos, brinquedos, qualquer coisa em lojas de rua que se reuniam no centro da cidade.

Das coisas que mais marcaram a minha infância foram as tardes - que se prolongavam noite adentro - de compras no centro de São Paulo. Saíamos cedo de casa, eu e minha mãe, e íamos para a região da Praça Patriarca, Barão de Itapetininga, entre outros lugares fazer compras em lojas como Mappin, Mesbla, Arapuã, G. Aronso, etc.






Lembro que a Mesbla era das mais caras e era ali que minha mãe gostava de comprar roupas e roupas de cama. O Mappin era mais popular, mas os preços dos brinquedos eram tentadores. Quando o assunto era sapatos, nada melhor do que entrar na Tip Top ou na Júnior, ali na região da República, para comprar os meus sapatos ou na Jean Daniel - com sua fachada em neon -, mais próxima do Anhangabaú, para os sapatos de adultos. A Arapuã era onde costumávamos comprar os então famosos "3 em 1", mas meu avô preferia comprar eletrônicos e eletrodomésticos na G.Aronson e aproveitar para bater um papo com o Sr. Aronson, amigo dele.

Não tão perto do centro, mas na região da Paulista, tínhamos a Sears. Sim, era uma espécie de Zara da época. As compras de Natal eram feitas ali. Mais cara, com incríveis caixas de presentes, a Sears ocupava o local onde hoje é o Shopping Paulista. Costumávamos ir de carro até lá e até hoje o cheio de pipoca que exalava na porta da loja vem à minha cabeça.

Aliás, por falar em pipoca, é impossível pensar nas compras no centro, sem lembrar dos lanches no Jack-in-the box. Até hoje, tenho um copo de vidro que ganhei de lá. Na época, eram poucos McDonald's na cidade e no centro tínhamos apenas o Jack-in-the-Box e o delicioso Dunkin' Donuts.

Era esse o nosso roteiro: andar na rua, fazendo compras até meia-noite, sem medo de sermos assaltadas, sequestradas, terminando nosso dia comendo tranqueiras americanas. Um tempo em que não tínhamos medo de andar na rua, nem de ficar em casa, um tempo seguro.




sexta-feira, 4 de maio de 2012

Rios, pontes e overdrives… Impressionantes esculturas de lama! Mangue, mangue, mangue!

Foi no início dos anos 1990, em Recife, que teve início o “Manguebeat”, um dos movimentos mais importantes surgidos nas últimas décadas no Brasil, inspirado nas tradições da cultura popular local, que misturava ritmos como o maracatu, o coco, o samba, entre outros, com o rock, o rap e as batidas eletrônicas.

Chico Science, ao lado de Fred 04, da Mundo Livre S/A, foi um dos principais líderes do movimento e um dos responsáveis por trazer novamente ao Brasil - e levar ao mundo - uma estética similar à da Tropicália, da década de 1960, recuperando temas e ritmos tradicionais, aliados às produções internacionais, especialmente as da cultura norte-americana, que passavam pela dança, pelo cinema, pelos quadrinhos, pela moda, entre outras tendências.

Na verdade, Science e os outros participantes do movimento não foram os primeiros a resgatar os ritmos populares, pois isso já havia sido feito por Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, entre outros. Porém, o trabalho dos participantes do Manguebeat foi importante por produzir um novo conceito de identidade, ligado diretamente à própria cidade de Recife, por meio de uma poesia marcada não só pelas manifestações tradicionais de Pernambuco, como também pelas vanguardas culturais, estimulando novas produções até hoje e a re-significando da tradição local.

No início da década de 1990, em função da crise econômica vivida pelo Brasil, o país passava por um período marcado pela redução dos gastos públicos, o que tornava a cultura uma questão de mercado que devia atrair investimentos privados para seu financiamento.

Em Pernambuco, a situação não era diferente do restante do país. O então secretário da Cultura do Estado, Ariano Suassuna, criador do Movimento Armorial, em 1970, cujo objetivo era proteger as manifestações populares das influências do mundo contemporâneo, direcionava sua gestão para a preservação das tradições da cultura popular pernambucana, por meio do Projeto Cultural Pernambuco-Brasil, o que não incluía a arte massificada, o movimento Mangue, que estava em formação, e a periferia do Recife.

Foi assim que, inconformado com o marasmo cultural local e diante do fato de que era possível criar e divulgar músicas, independente dos investimentos públicos ou privados, um grupo de jovens deu início ao que viria a ser a metáfora maior do mangue, que traduziria a inquietude dessas pessoas, o Manguebeat.

Articulando as manifestações culturais da periferia do Recife, que estavam à margem das políticas públicas, de amigo para amigo, numa espécie de propaganda boca-a-boca, sem dinheiro e sem estrutura, os participantes do movimento – os mangueboys - passavam por diversas dificuldades, uma vez que, por fazerem parte do circuito underground, não tinham visibilidade na mídia, fora de seus círculos de amizade. E, justamente por causa dessa falta de estrutura, falta de local para tocar, falta de instrumentos, uma característica forte do movimento punk veio à tona trazida principalmente por Fred 04, o “faça você mesmo”. Assim, há uma grande mobilização por parte dos participantes do movimento a fim de confeccionar materiais de divulgação, panfletos, estabelecer contatos com outros grupos e outras pessoas, promover shows, etc. Desenhavam-se assim os primeiros passos da cena cultural do movimento que se consolidaria por meio da banda Chico Science & Nação Zumbi (CSNZ).

Na verdade, o que acontecia era que este grupo de jovens buscava acabar com a falta de atividade cultural vivida pela região, e produzir algo novo, que reunisse não só música, mas cinema, quadrinhos, moda, dança, sem deixar de lado as tradições musicais de Pernambuco, como o maracatu, algo típico da pós-modernidade, como afirma Linda Hutcheon em Poética da pós-modernidade:
“Não é um retorno nostálgico; é uma reavaliação crítica, um diálogo irônico com o passado da arte e da sociedade” (HUTCHEON, 1991: 20).

O Manguebeat (ou manguebit) teve início com o festival “Viagem ao centro do mangue”, organizado por Fred 04 e Renato L, da Mundo Livre, além de Chico Science, e, nele, bandas como a Loustal, o Lamento Negro – bloco de cultura afro nascido em Peixinhos, Olinda - e a própria Mundo Livre apresentavam a diversidade musical e a cultura popular local.

A história de Chico Science e sua relação com o mangue, porém, tem início muito antes. Francisco de Assis França, filho do funcionário público Francisco França e da dona de casa Rita Marques, foi um menino humilde, catador de caranguejos, criado à beira do Capibaribe, ouvindo o som da periferia e a trilha sonora do bairro, que incluía o soul e o funk da década de 1970.  Foi ali, no bairro de Rio Doce, nas ruas, junto aos amigos, que ele, conscientemente ou não, reuniu repertório para o que seria produzido anos mais tarde no Movimento Mangue.

Na década de 1980, Science, junto com Jorge Du Peixe – seu amigo desde a adolescência, que se tornaria integrante da Nação Zumbi - , criou o coletivo Legião Hip Hop, dedicado ao movimento surgido nos anos 1970, nos Estados Unidos, desenvolvendo material relacionado, principalmente, a três dos elementos básicos do hip hop: o break, o grafite e o rap.


Contudo, foi no final dos anos 1980 que se deram os primeiros encontros entre os precursores da cena Mangue. Science, na época “Chico Vulgo”, conhece o jornalista Fred Rodrigues Montenegro, um punk que fazia samba sob o pseudônimo de Fred 04 na Mundo Livre S/A, vindo de outro extremo sócio-econômico, do bairro de Jangada, Boa Viagem, Recife. O encontro se deu por meio de um amigo em comum, José Carlos Arcoverde (Herr Doktor Mabuse), webdesigner pernambucano, que costumava reunir os amigos em sua casa para ouvir música, beber cerveja e comer caranguejada, tudo de forma muito descompromissada.

Com Doktor Mabuse, Science e Du Peixe montaram o Bom Tom Rádio, coletivo que criava protótipos de acid house – vertente do house, estilo de música eletrônica, que mais tarde seriam usados com a Nação Zumbi.

As primeiras intenções de montar uma banda por parte de Science, entretanto, tiveram início com a banda de garagem Orla Orbe, junto com Lúcio Maia e Alexandre “Dengue”, banda muito influenciada pelos elementos americanos, especialmente por artistas como LL Cool Jay e Run DMC.

Os músicos, porém, começaram a levar mesmo a sério a música com a formação da Loustal, no final dos anos 1980. Banda composta apenas por guitarra, baixo e bateria, dedicada à psicodelia dos anos 1960 – que tanto interessava a Science – e ao ska, ritmo jamaicano que mistura elementos caribenhos, jazz, etc, a Loustal já trazia em seu repertório as canções “Manguetown” e “Etnia”, que fariam parte do álbum Afrociberdelia, lançado mais tarde com a Nação Zumbi.

No início dos anos 1990, Chico Science, trabalha na EMPREL, empresa municipal de informação do Recife, e tem como colega Gilmar Bola 8, responsável pela ponte entre a Loustal e o Lamento Negro, bloco da ONG Daruê Malungo, que ensinava às crianças da periferia do Recife, mais especificamente de Peixinhos, o maracatu, a ciranda, o coco, as tradições locais.

Da união do rock da Loustal com os tambores e a percussão do Lamento Negro, que tocava maracatu e samba reggae, surgiu a Chico Science e Lamento Negro que, mais tarde, passaria a se chamar Chico Science & Nação Zumbi.

Foi em 1991 que Fred 04 redigiu um manifesto enviado à imprensa como release de uma festa, mas que, posteriormente, em 1994, estaria presente no encarte do primeiro CD de CSNZ, Da lama ao caos. É neste texto que o movimento tem seu conceito desenvolvido a partir de relações estabelecidas com o mangue e, nele, aparece, pela primeira vez, o termo “mangue” como metáfora de todo um movimento cultural que estava surgindo no Recife, cuja proposta era promover o diálogo entre as tradições da cultura popular local e a modernidade:
“engendrar um ‘circuito energético’, indicar a fonte capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama”.

Ao incorporarem a tradição ao moderno, o que esstes articuladores fazem é mostrar que tudo pode ser reutilizado, recontextualizado numa espécie de reciclagem da música:
“A maioria dos relatos ou celebrações do rock ou da música popular pós-modernos enfatiza dois fatores relacionados: em primeiro lugar, sua capacidade de articular identidade culturais alternativas ou plurais de grupos pertencentes à margem das culturas nacionais ou dominantes; e, em segundo (...), a celebração dos princípios da paródia, do pastiche, da multiplicidade estilística e da mobilidade genérica.” (CONNOR, 2004: 151)

Intitulado “Caranguejos com cérebro”, o manifesto se divide em três partes, relacionando a riqueza e diversidade dos manguezais à cultura do Recife.

A primeira parte, “Mangue – O conceito”, descreve geograficamente o que é o mangue, desenhando o que essa metáfora representa para o movimento, um local onde se reúnem diversos organismos, numa troca que, por sua dinamicidade, produz diversidade e riqueza:
“Estuário. Parte terminal de um rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.”

Em relação à “Manguetown – A cidade”, cabe dizer que Recife, local de origem do movimento, é fortemente marcada pela presença dos mangues, além de ser cortada por diversos rios e ter sido construída sobre inúmeros aterros. Aqui é traçado, de forma crítica, um perfil socioeconômico do local. Aspectos da geografia da cidade são relacionados aos processos históricos, à estagnação e às condições de vida limitadas da população local.
"… o desvario irresistível de uma cínica noção de “progresso”, que elevou a cidade ao posto de “metrópole” do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.Bastaram pequenas mudanças nos “ventos” da história para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos 60.

Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação aliada à permanência do mito da “metrópole” só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano. O Recife detém hoje o maior índice de desemprego do país. Mais da metade dos seus habitantes moram em favelas e alagados. Segundo um instituto de estudos populacionais de Washington, é hoje a quarta pior cidade do mundo para se viver.”

Terceira e última parte “Mangue – A cena” apresenta os objetivos do movimento e possíveis soluções diante da situação apresentada: “injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife”.
“... O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Em meados de 91 começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo é engendrar um “circuito energético” capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em quadrinhos, TV interativa, anti-psiquiatria, Bezerra da Silva, Hip Hop, midiotia, artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência.”

Estava, definitivamente, fincada na lama a parabólica que captaria e difundiria o som da banda. O primeiro CD da banda CSNZ, Da lama ao caos, seria  lançado em 1994 e, depois de viajar pelo Brasil e o mundo com a Mundo Livre S/A na Manguetour e conquistar o respeito da crítica e do público, a banda lançaria, em 1996, Afrociberdelia.

Com a morte de Chico Science, em 1997, apesar de a Nação Zumbi ter passado um período sem gravar CD algum e muitos questionarem se a banda continuaria, o grupo, assim como os outros envolvidos na cena, não parou. Se, hoje, a Nação Zumbi pode cantar canções como “Meu maracatu pesa uma tonelada”, a Mundo Livre S/A pôde comemorar 15 anos e novas bandas surgem trazendo características muito próximas às das bandas de Recife dos anos 1990 é porque graças a artistas como Chico Science - que transformaram e continuam transformando a cultura jovem nordestina, levando-a ao mundo -, a energia injetada na lama continua a estimular o que “resta de fertilidade nas veias do Recife” e o satélite fincado na lama continua a dissipar o que é produzido dela.

Para ler o Manifesto completo: www.mundolivresa.com