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terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Serafina e o Criolo

Aí, a revista Serafina, publicada pela Folha de S. Paulo, trouxe estampada na capa o rapper do momento, o Criolo, e deu a ele uma matéria de seis páginas, cheia de fotos produzidas e...

Quem me conhece sabe que eu tenho certa implicância com a forma como o rap é tratado. Explico: ninguém gosta de rap, mas de repente um cara/um grupo faz um rap com um tom um pouco mais pop e, pronto, nego sai por aí dizendo que adora rap, que é do movimento. Foi por causa de toda essa minha "implicância" e por gostar do som do Criolo (desde a época em que ele era Criolo Doido) que eu resolvi ler a matéria da Serafina.

Bom, a matéria foi escrita por uma pessoa que, provavelmente, nunca tenha ouvido rap na vida. Talvez não tenha ouvido nem o aclamado "Nó na Orelha" do Criolo. E, como todo bom jornalista, não se preocupou em pesquisar muito além da Wikipedia.

O texto começa até bem, falando sobre uma festa na Hole - balada conhecida de quem curte rap, reggae, dancehall -, porém, a certa altura do texto, a jornalista escreve:

Pensa um pouco e continua. "Recentemente, subi ao palco com GOG, Dexter e Edi Rock. Foi outra grande honra. Tenho sido abençoado", afirma, falando de seus encontros com grandes nomes do rap, os dois últimos integrantes do Racionais.


Pausa: Dexter nunca foi dos Racionais. Dexter era parte da dupla 509E, que agora segue em carreira solo. Quanto ao brasiliense GOG, este merecia uma referência também, como a dada sobre Edi Rock, já que foi um dos pioneiros do rap nacional.

Lá pelas tantas, aparece perdido no texto uma citação ao Hole como HoLLe. Ops, erro de digitação ou total falta de conhecimento mesmo? Não sei.

Outro parágrafo diz:


A faixa é um dos hits de "Nó na Orelha", álbum lançado neste ano e apontado como pioneiro por misturar o rap a ritmos como reggae, bolero e samba.


Pausa 2: Desculpe, eu gosto muito do Criolo, mas o álbum não é pioneiro. Jair Rodrigues já misturou o samba com o rap há muito tempo com o seu "Deixa que digam, que pensem, que falem...", assim como Marcelo D2 e Rappin' Hood que, bem ou mal, já misturaram sons.

Mas os parágrafos que mais me chamaram a atenção foram estes:

Criolo tem apresentado dois formatos de show. Uma versão tem banda poderosa, com nomes como o violonista revelação Kiko Dinucci, além de bateria, piano, baixo, metais e duas backing vocals. A outra aposta na formação clássica do hip hop: DJ e MC.
O público fiel do rap tem assim a chance de ver um show com estrutura caprichada, enquanto os novos fãs, que acabam de conhecer o universo dos rimadores, podem sentir a pancada de ouvir um rapper disparar suas letras apoiado só pelas batidas e pelo coro de aliados.


Ter dois formatos de show é ótimo e eu acredito que isso ocorra para que a apresentação possa ser adaptada a qualquer local e a qualquer bolso.

O que me intriga é o fato de a jornalista escrever que "O público fiel do rap tem assim a chance de ver um show com estrutura caprichada, enquanto os novos fãs (...) podem sentir a pancada de ouvir um rapper disparar suas letras apoiado só pelas batidas e pelo coro", peraí: público de rap também é público de shows bem estruturados, não é porque gosta de rap que só vê show no bar do Zé Batidão. Por outro lado, é difícil acreditar que estes "novos fãs" frequentem o "universo dos rimadores", afinal eles foram conquistados pelo fato de ser um rap que não parece rap, não é?

A matéria traz ainda um box com o título "Acredite nesse 'hype'(citação à música do Public Enemy, que nem vou perder tempo comentando)". É, Criolo virou "hype" na matéria da Serafina.

Ali, a editora de um dos cadernos da Folha afirma sobre o rap:

Enquanto o rap é fonte primordial da música pop norte-americana há pelo menos dez anos, o Brasil só agora flerta com a possibilidade de democratizá-lo. E Criolo faz parte desse movimento ao criar uma ponte entre periferia e centro, pretos e brancos, manos e hipsters.


O rap existe como "fonte primordial da música pop norte-americana" há pelo menos 20 anos, não 10.

Não há como comparar o rap norte-americano com o rap feito no Brasil. Enquanto lá predomina os rappers do bling-bling e do pimp, aqui o rap é música de caráter social e, por isso, nunca foi democratizado.

A tal "possibilidade" de democratização ocorre porque Criolo fez uma música falando de amor em São Paulo em ritmo que se distancia do rap, então isso não é democratizar o rap, não é?

O rap sempre esteve aí, há mais de 20 anos, a periferia, pretos, brancos, manos sempre estiveram aí - já disse Mano Brown "O mundo é diferente da ponte pra cá" - quer dizer, a ponte sempre esteve aí, não foi criada, mas ninguém nunca quis atravessar. É fácil gostar de Criolo falando de amor em ritmo de bolero num show no Auditório do Ibirapuera. Queria ver gostar de Criolo cantando sobre o Grajaú numa rinha de MCs no Vale do Anhangabaú ou numa comunidade da Leste.

No finalzinho do texto, a autora ainda diz:

O artista usa a linguagem cifrada dos MCs. Mas, quando temas característicos do rap nacional, como o crime e a desigualdade, dividem estrofes com a solidão na metrópole e o amor não-correspondido, fica fácil penetrar no seu dialeto. O discurso se torna universal.


Quer dizer que, no final, o rap do Criolo só se aproxima do nosso discurso quando fala da solidão na metrópole e do amor não correspondido, só assim se torna universal. Como se o crime e a desigualdade não fizessem parte desse "universo". Estranho... E "linguagem cifrada dos MCs", "dialeto" é o caralho!

Enfim, são só opiniões e comentários sobre o que eu li. Eu continuo gostando de Criolo (Doido) e de rap... Mas queria ver nego gostar desse Criolo Doido.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Só pra quem é pião de vida loka

Trilha Sonora do Gueto (T$G) é um grupo de rap formado desde 1998 no Capão Redondo em São Paulo. Formado por Cascão, Bokão, X-Bacon, Karatê, DJ Pudim e Véio, o grupo se destaca dos outros pela linguagem que utiliza em suas músicas, cheia de gírias, que não é qualquer um que entende, compondo uma verdadeira trilha sonora do gueto (mas só pra quem é!).

A música "Pião de Vida Loka" (assim mesmo!) fez parte da trilha da Turma do Gueto, antiga novelinha da Record, com Netinho de Paula, e chegou a ser indicada na categoria Melhor Video de Rap em 2004, mas é claro que não ganhou.



* Material rico pra linguista, não?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Rap é compromisso

O rap sempre foi ignorado pelos veículos de comunicação e pela sociedade em geral. Agora, o Estadão diz que ele está em crise. Como assim?

Pra quem não sabe o rap é um dos elementos do Movimento Hip Hop, que teve origem nos Estados Unidos paralelamente ao Movimento dos Direitos Civis. A ideia era, além de divulgar o que acontecia nos "guetos" - locais habitados por afro-americanos, hispânicos, enfim imigrantes legais ou não -, promover uma disputa entre gangues que acabaram por se formar nesses locais, porém utiliando a arte e a criatividade.

Kool Herc, considerado o pai do hip hop, foi o responsável para o desenvolvimento do DJ. Nascido na Jamaica, trouxe para as block parties do Bronx os tradicionais Soundsystem, que inicialmente tocavam reggae, soul e funk. Foi ele o primeiro a usar dois toca-discos e a girar os pratos pra frente e pra trás, além de usar o microfone para animar as festas, receber os amigos, como um mestre de cerimônias (daí o MC), dando uma nova cara à música.

Graças a essas quebras nas músicas, causadas pelas pausas nos toca-discos e nos giros, surge também um novo jeito de dançar: o break, dança em que os artistas quebram movimentos de acordo com a batida.

Até então, os elementos seguiam isolados, cada um em seu estilo.

Foi Afrika Bambaataa, DJ e criador da Zulu Nation, porém o responsável pela reunião dos elementos dos dos elementos da cultura hip hop e pela organização do hip hop como movimento cultural. O objetivo era tirar o caráter negativo das gangues e das disputas entre elas (que já tomava proporções maiores, saindo do gueto e tornando-se uma disputa entre Costa Leste e Costa Oeste americanas) e fazer com que cada um pudesse mostrar suas habilidades artísticas da melhos maneira. Óbvio que, desse modo, a disputa saía, em parte, das armas e se tornava uma disputa de ideias, de criatividade, enfim...

No Brasil, o movimento só chegou na década de 1980, principalmente por meio da dança e de artistas internacionais como Michael Jackson, que trouxe passos do break. Assim, passaram a ser promovidos bailes pela Chic Show, Black Mad e Zimbabwe, além das tradicionais rodas de break da São Bento, o que fez com que a procura pelas músicas dos bailes aumentasse.

Consequentemente, mais tarde, surgiriam Thaíde e DJ Hum (que já participavam das primeiras rodas de break da São Bento), Mc Jack, Pepeu, Racionais, primeiros artistas a gravarem rap em vinil no Brasil.

Fato é que, no Brasil, o movimento hip hop, não só o rap, esteve sempre legado ao underground. Nunca foi categoria de prêmio (a não ser pra mostrar "Olha, os Racionais não aparecem em lugar nenhum, mas vão aparecer na MTV esse ano"), nunca esteve na TV, nunca esteve no rádio (a não ser nas rádios pirata), nunca esteve nas grandes casas de show, enfim "nunca nada", por isso quando o Estadão afirma que o rap está em crise, acho um engano.

O rap continua aí, cumprindo seu papel de disputar ideias com criatividade, ainda que poucos fiquem sabendo.

Sim, como diz a matéria, esse ano não haverá o tradicional Indie Hip Hop no Sesc Santo André, mas... no dia 16 de julho, em Jacareí, aconteceu a Rua do Flow, com batalha de MCs, lançamento de CD do Marechal... a partir de 29 de julho, o Sesc Ribeirão Preto promove um Festival de Cultura Hip Hop.

E aí, o rap tá em crise?

Kamau e E.M.I.C.I.D.A não param de fazer show. E aí, o rap tá em crise?

Condenaram o assassino de Sabotage
. E aí, o rap tá em crise?

Culto Racional, Face da Morte, Ments Criminals, DBS lançaram CD e música nova. E aí, o rap tá em crise?

Elo da Corrente, KL Jay, MZK, Rincon Sapiencia, Funk Buia, Sombra, Sandrão, Rashid e muitos outros têm feitos shows toda semana no centro de São Paulo, como na Matilha Cultural, no Bleecker, etc. E aí, o rap tá em crise?

No Ibirapuera, está rolando uma exposição de arte urbana contemporânea, reunindo os principais grafiteiros da atualidade. Na Matilha Cultural, está em cartaz a mostra Urbanidades que apresenta produções audiovisuais ligadas ao s temas do hip hop , do cinema ao pixo, passando pela música, dança, questões sociais. E aí, o rap tá em crise?

Em agosto, ocorre mais uma vez o Prêmio Hutuz. E aí, o rap tá em crise?

E agora?

Na verdade, acho o que o Estadão tentou fazer foi colocar periferia contra periferia (não sei a troco de quê, mas...), afinal funk e rap têm origens parecidas, são manifestações feitas na periferia para a periferia, e cada um ouve o que quer, ouvir uma coisa não exclui a outra! Ou, simplesmente, como fazem sempre, fizeram mais uma matéria sem o mínimo de embasamento, nenhuma pesquisa, nenhum conhecimento antes de falar. Uma lida rápido no Central Hip Hop, no Rap Nacional, e a matéria teria sido sobre como o rap sobrevive sem aparecer, não?

Não ser o 50 Cent ("50 cent? Não dou 1 real. Sou mais o Rap Nacional." Sérgio Vaz), não ser o que são os rappers americanos, não representar financeiramente o que eles representam, estar fora da mídia, não significa que o rap esteja em crise. Se fosse assim, ele já teria nascido em crise no Brasil.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Janelle Monáe, the archandroid

Ela começou a aparecer depois de participar de 'Idlewild' (ótimo álbum do Outkast, diga-se de passagem!), do Outkast (sim, aquele do 'Hey ya!'). Depois disso, foi indicação para o Grammy com um EP baseado no 'Metropolis', do Fritz Lang e, nesse ano, a cantora americana Janelle Monáe está aparecendo novamente, dessa vez com o primeiro álbum de sua carreira, 'The Archandroid'.

Um misto de funk, soul, rock, muito de James Brown e um pouco das maluquices do Andre 3000, a cantora apresenta um som muito novo, bem longe das Rihannas, Beyoncés e afins. Vale a pena ouvir o que, pra mim, é a versão feminina e jovem de James Brown!

Aqui, numa versão de 'Smile', do Chaplin.



E aqui, 'Tightrope', sua música de trabalho.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

E o Mano Brown?!

Depois da Wanessa (com W) Camargo com Ja Rule, agora, chegou a vez de Negra Li.




A menina que cantava no RZO e parecia um mano nos anos 90, agora está cantando com Akon!




Cantar com Mano Brown ninguém quer, né?!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Encontro inusitado

É por isso que eu gosto de YouTube. Encontrei algo que acho bem raro: Odair José, Elke Maravilha e MV Bill.



Deixa essa vergonha de lado e assume que achou bom!

sábado, 6 de dezembro de 2008

As raízes do rap americano

A banda The roots foi uma das poucas coisas boas que conheci durante o período de 2 meses que trabalhei num escritório de advocacia na Vila Mariana.

Recém-formada em Letras, sem licenciatura, e desempregada, aquele emprego veio a calhar: seiscentos reais pra quem não tava ganhando nada era um bom negócio.

O problema é que eu fiz curso pra ser tradutora, revisora, no máximo professora, não recepcionista, secretária, telefonista e, por isso, odiava a idéia de ir pra Vila Mariana todos os dias às 8 da manhã.

A única coisa que me deixava um pouco menos triste era o fato de saber que o boy da "empresa", o Maicon (assim mesmo) ia estar lá. Explico: o menino de 16 anos, morador da Zona Leste (ou um pouco mais pra lá) era alucinado por hip hop e fazia umas discotecagens no tempo livre pra ganhar uma grana, além de jogar basquete de rua e ir aos sábados para a Mood pra se divertir.

Durante a tarde, quando ele voltava do INPI, o advogado saía pra almoçar e a secretária ficava por lá pra atender o telefone, íamos para uma outra sala, a única com um computador em todo o escritório, e ficávamos ouvindo várias coisas interessantes de RAP, coisas que eu nunca tinha ouvido falar... de Talib Kweli a Diplomats Dip-Set, passando por Tupac, entre outros.

A banda preferida do Maicon acabou se tornando a única banda de hip hop americano que eu gosto, The roots.

Vindos da Filadélfia, não trazem um simples rap, como o que já conhecemos (e que não vale muito a pena ouvir), com um DJ e um MC (e mulheres pra todos os lados nos videoclipes), tipo 50 Cent, sabe?! A banda tem uma pegada mais jazzística, dada principalmente pelo toque instrumental, e apresenta influências do R&B, além de, por vezes, contar com a participação de artistas como Erykah Badu, Eve, Mos Def, entre outros.

Sim, existem coisas boas no rap americano e esta é uma delas: ‘You got me'.