Aí, eu tô lá comendo minha tortinha de blueberry depois do almoço, quando chega um grupo de cinco pessoas que se sentam na mesa ao lado. A conversa começa por um rapaz que diz:
A: - Nossa, quantos doces gostosos! Eu nem sei qual escolher... Na verdade, eu não quero comer um muito doce por causa da diabetes... Ai, bolo de cenou vai muita manteiga, além do chocolate, é muito gorduroso... ai, meu colesterol.
B: - Ah, escolhe entre ser diabético ou ter colesterol e come logo!
C: - Eu sou a favor de você comer o que tem vontade, independente de ser ruim pra diabetes ou pro colesterol.
A: - Verdade, né? Vou querer um pedaço de cada doce então...
Até eu sair de lá, o que demorou bem pouco, visto que eu já estava na sobremesa, ele já havia devorado três diferentes.
Eu sempre tive problemas com comida. Nunca gostei muito de nada, sempre fui enjoada, sempre comi pouco - do tipo que ou comia o cheeseburguer ou a batata frita, sabe, que não dava conta de comer o McLanche Feliz...
Certa vez, minha tia ganhou uma promoção do American Express que dava direito a um almoço com acompanhante num hotel chiquérrimo. O prato que seria servido era paella.
Lá fomos eu (que devia ter uns sete anos), minha mãe e minha tia, todas arrumadas, com vestidos, sapatos...
Toda chique, sentei e vi à minha frente uma infinidade de copos e talheres, o que já me deixava com certo pânico. Graças a Deus, enquanto esperávamos o prato, fui carinhosamente apresentada pela minha mãe a todas as ferramentas que seriam utilizadas ali.
Tudo ia muito bem e eu parecia ter esquecido que estava ali para um almoço. Até que vejo diante dos meus olhos um prato enorme, com uma montanha de paella maior ainda, em que eu via perninhas e coisas esquisitas por todos os lados, e, pra completar, olhavam fixamente pra mim dois lagostins que ocupavam o topo da montanha.
Não sei o que se passou pela minha cabeça naquele momento, mas no mínimo foi algo do tipo: "Meu Deus, vou ter que comer tudo isso? E o que esse bicho faz aí em cima?". Só sei que comecei a chorar desesperada, deixando minha mãe, tia e até o garçom sem saber o que fazer.
Resultado: o garçom teve de retirar o prato da minha frente e trazer bem menos quantidade, num prato de sobremesa e sem lagostim. Mas não teve jeito, não comi.
Graças a essa história, sou motivo de piada sempre que vou comer: "Não vai chorar, hein?!", mas eu não ligo. Na verdade, já me acostumei. E poderia até fazer um Top 10 Hora do Almoço:
1. Não vai chorar, hein?
2. Vai comer só isso? Não vai se engasgar!
3. Você nem devia almoçar...
4. Desse jeito vai dar prejuízo!
5. Não dá nem gosto fazer comida pra você.
6. Come mais um pouco, só mais um pouco...
7. Você não gostou da comida?
8. Ah, tudo isso pra não engordar?!
9. Nossa, Poti, que pouquinho.
10. Desse jeito, essa sua anemia vai virar leucemia.
Na verdade, ouvir isso da família, dos amigos mais próximos, ainda dá pra relevar, levar na brincadeira, mas... quando você ouve isso de pessoas que nunca conversaram mais de uma hora com você, dá vontade de recitar palavrões em vários idiomas.
Aí, eu me pergunto: por que as pessoas não cuidam de seus próprios pratos?! Eu não fico dizendo pras outras pessoas, coisas do tipo:
O moço: Alessa, Alessa, eu gosto! A moça: Quê?!?! O: Eu gosto de Alessa, do nome Alessa. É um bom nome pra bebê. Não é? A: Nossa, mas faz só um mês que a gente tá namorando e você já está pensando no nome dos nossos filhos?! O: Não, é que eu tô lendo um livro. Você disse que gostava de ler, de gente culta, gente que lê... Tô me esforçando... A: Livro?! Mas o que isso tem a ver com nomes?!?! O: É que eu tô lendo "1001 nomes de bebês".