Sempre achei o Benito di Paula meio esquisito, mas o engraçado é que, por mais que o achasse estranho, sua imagem de paletozinho cinza, tocando piano e entoando versos como “Ei, meu amigo Charlie Brown” nunca saíram da minha cabeça. Talvez isso tenha acontecido por causa do Charlie Brown, do Snoopy, mas acho que não...
Quando eu era pequena, muitas tardes de domingo eram passadas na casa da “Tia Neyde”. Ela nunca foi minha tia, era prima, mas por ser mais velha do que eu, naturalmente, virou “tia”.
A casa ficava (fica ainda) na Lapa e lá reuniam-se os primos em volta da mesa da cozinha para conversar (o que incluía principalmente falar mal de uma boa parte da família que não estava presente), batucar, cantar, comer, beber (e isso eles faziam muito!), etc.
A reunião não se limitava à cozinha e ia para o quintal, onde ficavam estacionados os carros e onde eu e meus primos da mesma idade brincávamos na rampa que ia em direção à rua, na laje, na parte de cima, onde havia um pé de alguma coisa – se eu não me engano jaboticaba – e uma balança, feita pelo Tio Zé (que também não era tio, era primo).
Além das crianças, os mais velhos também iam para fora e sentavam na rampa, onde cantavam – muitos bêbados, outros nem tanto – e continuavam a conversar...
A reunião de domingo não se limitava à família e a vizinhança, bem conhecida por eles, também costumava participar com personagens inusitados e, aqui, entra o Benito di Paula.
Entre os vizinhos – a solteirona do lado, Nancy; o alemão amigo do Tio Damas, o patriarca da família, conhecido pelo apelido Schön... Mas era justamente no fim da tarde, na hora da “Porta da esperança”, do Silvio, que chegava também a Vi, namorada do Tio Damas, e ele, o "meu" Benito di Paula, oops, o Tom.
O Tom sempre foi uma figura, no mínimo, esquisita. Sempre magrinho, cabelos grisalhos, com seu paletozinho cinza, sapatos pretos e camisa branca, ele aparecia nessas reuniões, como se fosse da família e participava de todas as conversas, fumando seu cigarrinho, contando histórias difícies de entender, pois o que ele falava em estado normal já era difícil, bêbado então...
Fato é que nunca vi o Tom cantar, nunca vi tocar piano, e ele sequer falava no Charlie Brown, mas era olhar pra ele e ver Benito di Paula. Na verdade, eu sempre tive a certeza de que ele era realmente o Benito e até achava legal ele ir ao meu aniversário, viajar com a gente (eu acho que ele viajou uma vez, mas não lembro), tipo: “O Benito di Paula foi ao meu aniversário, não é o máximo?!”
Enfim, o tempo passou, as reuniões aos finais de semana pararam de acontecer, Tio Damas e Vi faleceram, Tio Zé mudou, Tia Neyde mudou, não dá mais pra ficar sentada na rampa brincando, a “Porta da Esperança” não passa mais, Tom sumiu e, com ele, Benito di Paula.
Na realidade, outro dia, ele apareceu na TV, mas não era mais o mesmo, faltava o piano, o paletozinho, parecia mais um velhinho decrépito do que o amigo do Charlie Brown... Talvez seja porque o meu Benito di Paula nunca tenha sido aquele da TV, mas só o nosso amigo Tom.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Pequenos prazeres e nossos novos cérebros eletrônicos
“The future I so bright that I’ve got to wear shades.” Timbuk3
FOLHA - E como foi a entrada do computador em sua vida profissional?
QUINO - Não entrou nunca.
FOLHA - Não o usa de forma alguma?
QUINO - Para nada. Minha mulher o usa, mas eu não. Sou analfabeto em tudo isso.
FOLHA - E tem alguma opinião sobre tecnologia?
QUINO - Acho que veio para mudar as relações humanas, de fato. Porque as pessoas não se comunicam mais com seus vizinhos, mas com gente que está muito longe.
FOLHA - E acha que isso é mal para os jovens?
QUINO - Para eles, não, porque já nascem lidando com essas tecnologias. O problema é para os que viram outro modo de se comunicar.
FOLHA - Você se sente de alguma forma distanciado ou excluído por causa disso?
QUINO - Excluído, sim. Porque, por exemplo, na Europa é muito comum que você vá ao correio e não haja uma pessoa para atendê-lo. Você tem que ir a uma máquina, pesar a carta, ver quanto tem que pagar e tudo o mais, sem encontrar uma pessoa para lhe dizer que gostou do seu penteado hoje. Não há mais contato com nada.
(Cartunista Quino, 77 anos, em entrevista à Folha de S. Paulo)
Então... Se é verdade que a internet ajudou e ajuda muito em várias situações, é bem verdade também que muitas coisas foram meio que "acabadas" com a criação da rede.
Óbvio que o Google facilitou a vida da gente. Digite qualquer coisa que precise saber ou mesmo seu nome completo ali que tudo relacionado ao assunto aparece na sua tela. Claro que a comunicação ficou bem mais rápida e ilimitada, pois, ainda que você esteja no Butão ou nos confins da floresta amazônica, com um notebook e alguns poucos aparatos tecnológicos, você pode mandar notícias pra sua família, conversar com seu namorado, atualizar seu Twitter... Enfim, são muitas as vantagens, porém...
Você se lembra há quanto tempo não recebe nem lê uma carta escrita à mão por um amigo ou parente? Ou mesmo, há quanto tempo não recebe um telefonema apenas para conversar, não com um operador de telemarketing do outro lado da linha tentando te vender um novo plano da Tim, Claro, ou qualquer outra coisa dessas?
Pois é, com o e-mail, as páginas de "relacionamento" e as outras "novas" formas de comunicação, tudo se resume a mensagens curtas, recados... Não há mais a ansiedade à espera de uma carta com notícias daquele seu amigo que está morando na Bahia, não há mais a emoção de receber a notícia de que sua filha, que agora mora no Canadá, teve um bebê e está te mandando a primeira foto da netinha.
Mesmo o simples fato de sair para comer, beber e conversar com os amigos praticamente não existe mais. Agora, todo mundo usa o MSN para discutir sobre quem está melhor no Campeonato Brasileiro ou quem vai ganhar a Copa do Mundo, tendo ao lado seu copo de coca ou cerveja, um sanduíche qualquer e contando com as pesquisas, gráficos e especulações encontradas no Google para embasar seus argumentos.
É, o Google, também acabou com a nossa "saudosa" enciclopédia Barsa. E a Britânica? E a coleção Conhecer? Ler é saber... Quem não se lembra? Todo ano, no meu colégio, os vendedores faziam reunião com os pais para vender enciclopédias... Nosso sonho de consumo era ter uma enciclopédia Barsa, caríssima na época! Hoje, quem vai perder tempo e dinheiro, comprando enciclopédia e consultando. "Coloca no Google que, em menos de dois segundos, ele é capaz de te mostrar mais de mil referências. Isso sem falar na Wikipedia.
Falando em conhecimento, enciclopédia, MSN, que idioma é esse que se fala na internet? Vlw, flw, miguxa, muitaaum, naum... Às vezes, tenho a impressão de que estamos voltando pra algum tempo perdido no passado e, ao invés de evoluir, a língua está ficando cada vez mais próxima dos primatas que falavam "Uga-uga".E aquela sensação deliciosa de comprar um CD ou LP novo, abrir, ver todas as informações do encarte, colocar pra tocar e ouvir, pela primeira vez, aquela faixa escondida que só dava pra encontrar, se esquecesse, por acaso, o álbum tocando e, depois de 15 minutos, a banda ressuscitava com uma bela surpresa... Isso não existe mais. Antes mesmo de a gravadora começar a distribuir o CD pra loja, ele já está disponível nos sites de download ou mesmo no site do artista, inteirinho, com todas as faixas e mais algumas...
Enfim, ainda que a gente tente manter antigos costumes, como mandar cartas para os amigos ou um simples cartão de Natal pelo correio, pesquisar em livros, comprar CDs e LPs, muitos dos nossos pequenos prazeres foram perdidos com a internet, ou melhor, na verdade, novos prazeres são adquiridos a cada dia. Bons? Ruins? Úteis? Inúteis? Quem é que sabe...
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