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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A mais bonita definição de Reticência

"é a suspensão intencional do pensamento, quando o silêncio parece mais expressivo do que a palavra". (ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. p. 511)

...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O homem que diz “dou” não dá!

O linguista Jacques Moeschler define três domínios de fatos linguísticos – condições que orientam a prática linguística -, os fatos de enunciação, de inferência e instrução. Dentro dos de enunciação, há algo muito interessante que diz respeito aos enunciados performativos (mas que talvez seja apenas mais uma divagação do gnomo psicodélico que mora dentro do meu cérebro).

Sabe quando você diz: “Eu juro que não fiz isso”, “Eu prometo que vou te ligar”?! Isso é um enunciado performativo, pois realiza a ação que nomeia. Atenção que o que acontece, na realidade, é a “realização da ação que nomeia”, não tem nada a ver com o que vem em seguida, o objeto da ação.

Na prática, quando dizemos “Eu juro”, estamos jurando sim, mas isso não implica que o que eu estou jurando seja verdadeiro. O mesmo ocorre com “Eu prometo”; a promessa é feita, mas o objeto da ação não se realiza.

Mas o engraçado é que esses atos não se realizam se não forem enunciados, não se realizam pragmaticamente. Explico: quando eu me levanto de manhã, não preciso enunciar algo do tipo “Eu levanto cedo” para que o ato se realize, ele está lá, realizado na ação, na performance. Nos enuciados performativos, não há exatamente uma performance, há a simples enunciação e nada além disso. Há alguma outra forma de jurar que não seja falando “Eu juro”?

Depois de tudo isso, só posso dizer que sábio mesmo foam Baden e Vinicius ao escreverem “Canto de Ossanha” e dizerem que “O homem que diz ‘dou’ não dá”, entre outras… A música é uma aula do que realmente são enunciados performativos!


quarta-feira, 6 de maio de 2009

A vida segundo os ouvidos da minha vó

Jogo de futebol

- Vamos assistir o jogo do Corinthians hoje, mas o Reinaldinho tem que jogar!
- Ronaldinho, vó!
...
- Ih, olha, deu um penacho!
- Pênalti, vó!
...
- Ai, bem que o Bentinho podia dá um golzinho...
- Dentinho, vó!
...

Vendo TV
- Ah, mas hoje não é dia do programa do Rolim...
- Rolando Boldrin, vó!
...
- Põe na Veja!
- Que?!?!
- Dona Veja!
- Ah, Dona Beija, né?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Trocadalhos do carilho

Desde que o mundo é mundo, a língua é o que mais representa a sociedade. No nosso caso, brasileiros, todo nosso senso de humor, a malemolência dos trópicos, é bem representado pela simples habilidade que temos em dar novos sentidos às palavras e frases, por meio dos chamados trocadilhos (ou, aproveitando o tema, os “trocadalhos do carilho”). Eles nada mais são do que recurso retórico deito a partir de alguma semelhança fonética ou sintática existente entre palavras, frases, intencionalmente ou não.

Muitas vezes, eles são péssimos no quesito educação e palavras bonitas e parecem ter sido todos criados por Renato Aragão ou por algum amigo seu da escola, mas eu acho todos muito engraçados e quem nunca usou um “É pavê ou pra comê?” que atire a primeira pedra!

Lembro da minha época da escola em que o trocadilho-rei era o “Se tem bruchove?”... Quantas vezes, eu fiquei tentando descobrir o que seria “Bruchove” pra poder responder esta pergunta.... E claro, depois que descobri o que realmente era, passei a adotá-la em todas as minhas conversas!

Dando uma olhada na internet, encontrei uma série de trocadilhos e listei aqui alguns dos melhores. Aqueles que não tem humor (como eu, que rio até do Dedé!), que não riem quando alguém fala “É pavê ou é pá cumê?” ou que são muito sensíveis à baixarias, pulem este post!

1. “As plantinhas ainda não falam porque são mudas.”

2. “Você não tem, mas o Frankstein.”

3. “Eu pinto paredes, o Jânio Quadros.”

4. “Ele cria galinha, o Paulo Coelho.”

5. “Você planta, o Phill Collins.”

6. “Eu como camarão, o presidente Lula.”

7. “Você gosta de café de máquina ou no coador é mais forte?”

8. “Que time é teu?”

9. “Você precisa mudar o corte de cabelo. Corta um pouco na frente ou pica atrás...”

10. “A mãe do meu amigo adora o Silvio Santos. Ela gosta mesmo de ver o Roletrando.”

11. “Tem posto aí atrás?”

12. “A fita é virgem porque o gravador é estéreo.”

13. “Vou fazer um almoço, mas preciso que você venha descascar alho.”

14. “Ninguém queria pagar a conta, mas a Cássia Kiss.”

15. “Minha amiga Paula está indo pra Genebra, se você quiser alguma coisa Paula traz.”

16. “Exportar é o que importa”

17. “Você gosta de verdura?”

18. “Com tais premissas ele sem dúvida leva-nos às primícias.” (Até o Pe. Antonio Vieira, hein? Fanfarrão...)

19. “Feliz aniversário! E aí, vai ter festa nos seus anos?”

20. “Um abraço pra você e pra quem for da sua família.”



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Novo tradutor!

Bom, eu tinha feito um outro texto, mas como só quem salva é Jesus e backup... eu perdi!

Fiquei um pouco estressada e, dando uma olhada pela internet, descobri um dicionário sensacional!

Se você teve uma infância 80s e seus domingos terminavam com "Os trapalhões" ao invés de BBB, com certeza vai achar muito útil este dicionário que traduz tudo do português para o "mussunzês".

Isto mesmo, agora você pode falar qualquer frase na língua do Mussum. Pra isto, basta clicar aqui, digitar sua frase no espaço em branco, clicar em "TO MUSSUM" (adorei isto!) e pronto, terá pérolas, como:

Hojis estázis muitis calorzis!





"Eu tô tranquilis!"

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Eu e o jornalismo

Minha relação com o Jornalismo vem de bastante tempo e não é nada boa. Eu não sou jornalista (que normalmente sabe de tudo), mas tenho uma boa definição pra profissão.

Jornalista: pessoa, graduada ou não, que ganha espaço e dinheiro fazendo seus trabalhos escolares. Sim, seu trabalho de escola, quando publicado em algum veículo de comunicação, vira uma matéria e você é chamado jornalista. Em todas as vertentes, seja no jornalismo escrito, no fotojornalismo, no rádio ou na TV, este profissional julga saber de tudo, do nome de todos os afluentes do rio Amazonas ao nome da cantor afegão preferido de Osama Bin Laden, sem deixar de lado o nome de todas as empresas que estão com ações em alta no índice Dow Jones.


Outra tarefa deste profissional (?), especialmente como usuário da língua, considerando-se só por isso um lingüista ou gramático, é criar novas regras para a língua portuguesa. Isso, quatro anos de Letras pra que, se eu fiz Jornalismo?!Entre as regras do acordo jornalístico (ou do infeliz Manual do Estadão), destaco:

1. Século não se escreve em algarismos romanos, mas em arábicos. OK, então por que aprendemos os números romanos no colégio? Só por aprender? Ah, se é só por aprender, deveríamos aprender os números em japonês, hebraico... só por aprender....

2. Não se usa número por extenso em texto. A regra é clara: de 0 a 10 e após 1000, pode ser usado, fora isso não. Ah tá, entendi, número por extenso só em cheque! E como eu não costumo passar cheque de onze reais, nem de vinte e cinco mil, não sabia dessa regra!

Como estudioso da língua, ele acrescenta muito a ela e, conseqüentemente, a nós ao citar frases como: 'Olha, o estagiário desceu lá embaixo pra olhar.' - Bom saber que ele desceu lá embaixo, se tivesse descido lá em cima, eu ia responder sim à pergunta 'Quer que desenhe pra você entender?'.

Enfim, como escreveria uma jornalista que conheço, 'acho que descordamos' em relação a muitas coisas, principalmente, à língua e ao conhecimento.

Até agora, esse é o jornalismo que eu conheço:

Pareceria com Elis Regina?! Marcelo Campelo?! Pra fazer parte da banda tem que ter barba?!



Viva Amarante!!!



E a melhor...



Se alguém conhece algum outro tipo de jornalismo, por favor, me apresente!


* João, acho que você é o único jornalista que eu conheço que lê esse blog, então, desculpe, esse texto não é pra você e tenho certeza que não tem nada a ver com você.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Kandinsky e a lingüística



Quando fiz história da arte na FAAP, um dos artistas que mais me chamaram atenção e que me deram vontade de pesquisar foi Wassily Kandinsky.

Nascido em Moscou, em 1866, o artista foi o fundador do Blaue Reiter e inspirou-se na cultura oriental para recusar o racionalismo e o Cubismo, baseando-se numa estética voltada para o signo e para a força simbólica do espírito.

Em 1910, pintou sua primeira Aquarela abstrata e, a partir de então, ingressa numa fase em que sua arte se inspira na música. De 1912 a 1914, participou do Blaue Reiter, grupo de artistas do Expressionismo alemão, de Munique, cujo objetivo era a expressão da visão pessoal do artista por meio de qualquer forma que julgasse apropriada.

Kandisnky era um místico, contra os valores do progresso e da ciência e buscava a reconstrução do mundo por meio de uma nova arte, a arte abstrata. Para ele, a forma geométrica é pré-padronizada e estamos familiarizados a ela, assim, pode ser utilizada independente de seu significado conceitual originário. Desse modo, de acordo com as circunstâncias, uma mesma forma geométrica adquire diferentes significados.

Em Do espiritual na arte, o artista afirma que “Um triângulo dividido em partes desiguais, a menor e a mais aguda no ápice, representa esquemática, mas suficientemente bem a vida espiritual.”, desse modo, ao colocar lado a lado na Composição VIII (figura acima) triângulos e círculos, o artista cria tensões diferentes, pois provocando tensões e movimentos ilusórios e imprecisos. A soma destas tensões desejadas e ordenadas cria o que o artista chama de Composição, cuja finalidade é a expressão de uma sonoridade total.

Esta Composição apresenta também elementos de formas abstratas, o ponto e a linha. O ponto é considerado a menor forma, o vínculo entre o silêncio e o verbo. Segundo Kandinsky, as linhas horizontais teriam como resultado de um movimento a calma fria e as linhas verticais, calma quente. As linhas diagonais, que são inúmeras nesta composição, estão relacionadas à linha horizontal e à vertical, reunindo as duas calmas, as tensões das duas linhas. As linhas horizontais teriam ainda ligação ao terrestre, ao mundo uniforme, devido a sua característica de nivelamento, enquanto a linha vertical estaria ligada ao divino, unidade divina. O encontro das duas (o ângulo reto dos triângulos) seria então o encontro do divino com o terrestre sem se interpenetrarem.

Para Kandinsky, “a cor é percebida opticamente, vivida psiquicamente”. Assim, o olho sente a cor e é fascinado por sua beleza.

É interessante observar neste quadro, como o azul, que representa o obscuro, aparece inúmeras vezes próximo ao amarelo, seja contornando o círculo ou preenchendo o círculo contornado de amarelo, criando uma relação associada ao dia e à noite, assim o que teria tendência a se afastar, acaba se aproximando.

Para que seja feita uma composição realmente harmônica é necessário que se tenha não só uma cor, mas um tom determinado da cor e principalmente uma forma, uma superfície delimitada em relação às outras cores. As cores intensificam e reforçam o movimento das formas e vice-versa.

As formas aparecem nesta composição desordenadas, sem lógica, sem significado, mas, por outro lado, os significantes apresentados são cheios de sentido. O que o artista pretende é que se tome consciência da realidade e do fenômeno. A obra, apesar de parecer apenas um geometrismo sem sentido e incompreensível provoca estímulos no observador, transmitindo não mais formas e cores, mas força e movimento.

Com o seu geometrismo, Kandinsky pretende estabelecer a fenomenologia do existente numa morfologia clara, buscando um conhecimento superior. Argan afirma que “A problemática de Kandinsky se torna cada vez mais especificamente lingüística; a cada vez que se tem algo a dizer, não se cria uma linguagem do nada, mas a estrutura da linguagem se transforma continuamente porque as velhas palavras, agora inexpressivas, são captadas no fluxo da existência. Triângulos, círculos, retas, curvas e espirais são 'imagens conceituais', que se reconvertem em fenômenos na medida em que são mostradas naquele tamanho, naquela cor, naquele ponto do quadro, naquela relação com os outros signos. Assim, uma linguagem geral ou comum, social, volta a ser individual e específica.”

Para Kandinsky, “a verdadeira obra de arte nasce do 'artista'”, nasce da necessidade do artista de colocar pra fora o que vai dentro dele. Na verdade, o tema é superado e submetido à composição, se cala, dando lugar à força da cor e à expressão do significado interior do artista.

Forma e cor não tem sentido, mas o que faz sentido na obra de arte é a expressão do interior do artista.